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Por Marcos Gouvêa de Souza

O Brasil tem um dos mais modernos, controlados e avançados sistemas financeiros no mundo, que se transformou também numa referência internacional permitindo com que passássemos por sucessivas crises e recessões, globais e locais, sem nenhum risco sistêmico. Mas é também um dos mais concentrados, onde as taxas de juros para consumidores estão entre as três maiores do mundo, e o crédito para pessoa física é dos menos representativos em relação ao PIB do país.

Por méritos próprios o setor financeiro brasileiro é dos mais rentáveis e seu padrão de desempenho, comparativamente com o restante da economia, especialmente o setor industrial e de comércio, é incomparavelmente superior, com taxas de rentabilidade, crescimento e desempenho que o colocam em outro patamar, mesmo quando se compara com o mercado internacional.

Será esse o preço dessa modernidade? Como conciliar esse sistema moderno e controlado, de alto desempenho, com o necessário aumento do crédito ao consumo que torne acessível, produtos e serviços para a população estimulando o crescimento da indústria e do comércio, gerando empregos e renda no país e ampliando a arrecadação tributária?

O crescimento vivido pelo país no período 2004-2013, alimentado pelo consumo, com aumento do emprego, da renda, da massa salarial, da confiança do consumidor e do crédito, promoveu uma verdadeira revolução econômica e social no país, elevando o padrão de vida de mais de 40 milhões de brasileiros. Mas a insistência com o mesmo modelo, na sua fase final, colocou em cheque o crescimento pelo consumo, criando um falso dilema, segundo o qual essa forma de crescimento teria se exaurido e seria necessário buscar alternativas.

Parece estar nesse enigma, ou "sinuca de bico" na versão popular, o “x” da questão neste momento de repensar estratégico do país.

Sem dúvida é necessário pensar em outras formas alternativas para o crescimento econômico, entre elas a expansão industrial, da infraestrutura ou das exportações, mas é falsa a ideia de que se esgotaram as possibilidades de expansão através do consumo.

O que acontece é que essa alternativa está asfixiada pelo crédito às pessoas físicas, limitado, controlado e altamente discricionário, quase que exclusivamente para quem não precisa, complementado com taxas de juros proibitivas geradas por juros básicos altos e spreads bancários maiores ainda, em especial no setor financeiro privado.

No passado recente, na esteira da crise financeira global, com o mesmo cenário interno, os bancos públicos foram usados como elemento de equilíbrio competitivo, e é preciso cautela e isenção para avaliar as consequências efetivas dessa estratégia no desempenho, resultados e inadimplência resultantes dessa atuação.

O que não se pode negar é que neste momento temos taxas gerais de inadimplência nas pessoas físicas muito próximas de seu padrão histórico, sem nenhum sobressalto, e um cenário de endividamento das famílias que vem declinando há três anos, especialmente quando analisado excluindo-se o endividamento imobiliário.

Vale lembrar que o crédito às pessoas físicas no Brasil representa perto de 15% do PIB e, em outras economias, mais maduras, esse mesmo indicador varia de 50 a 95%. Tem muito espaço para crescer sem risco sistêmico.

Esse conjunto de fatores significa elevado potencial de crescimento de consumo através do crédito às pessoas físicas, o que poderia ser viabilizado com mais racionalidade na análise e concessão acumulada com redução dos spreads bancários na taxa de juros final ao consumidor.

Com a redução confirmada da inflação, está viabilizada essa alternativa e teríamos imediata resposta na melhoria das vendas e no consumo, com gradual ativação da atividade industrial e do comércio, melhoria na confiança do consumidor, aumento do emprego e da renda das famílias e o início de um novo ciclo de retomada econômica, fundamental para a necessária estabilidade política e social de curto e médio prazo. 

Sem falar na melhoria da arrecadação tributária, importante para contribuir, ao lado da revisão dos custos da previdência e da máquina pública, para o problema do déficit do Estado.

Está na hora de repensar cenários de forma mais aberta e plural. O tempo está passando.

Marcos Gouvêa de Souza (mgsouza@gsmd.com.br) é diretor-geral da GS&MD – Gouvêa de Souza. Siga-o no Twitter: @marcosgouveaGS

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